Nelson Coutinho

A Mandala Viva é um livro muito simples. É também muito profundo, mas devo dizer que as coisas profundas são simples. A complicação é nossa.
A Totalidade é a cura, a grande cura. A cura em um sentido mais amplo, além dos sintomas. A Totalidade é a meta da vida, é o grande aprendizado.
A dificuldade do livro, como é dito no início, é devido à falta de experiência. Para quem nunca teve uma experiência de integração é difícil imaginar do que estamos falando. O fenômeno da integração está envolvido em todos os grandes acontecimentos da vida humana. Mas, também, ocorre no cotidiano, após uma série de exercícios bem feitos, ou depois de um sonho forte, de uma sessão de análise, de um filme com conteúdo, de fazer amor, etc.
A Totalidade então é isso: tornar-se inteiro, criar uma Unidade. Tornar-se quem você é. Mas é claro que isso se dá em níveis, você vai pela vida realizando totalidades.
O livro vai falar justamente disso, e vai explicar que este fenômeno pode acontecer através da alma e/ou através do corpo. Por isso apresentamos uma teoria psicológica que fala com propriedade da integração pela alma, e uma teoria corporal que nos dá clara noção do que a integração pelo corpo significa.
É interessante perceber que duas teorias diametralmente opostas, uma é psicológica e a outra corporal, tenham vários pontos em comum. As duas possuem uma visão estrutural. Na visão junguiana a psique nos é apresentada como um sistema de estruturas que se relacionam por polaridades. Por exemplo a dinâmica consciente/inconsciente). Exatamente o mesmo se dá com o corpo, os blocos (por ex.: bacia/abdômen) vão se relacionar também como polaridades. Não só os blocos, mas também os músculos, que trabalham no sistema agonista/ antagonista.
A integração da psique acontece no contato com as imagens internas (sonhos, fantasias, etc), e a do corpo pelo trabalho sobre o padrão estrutural individual e o movimento. Ambas, a psique e o corpo, funcionam à partir de um centro. Mais do que isso, um centro que é a combinação de vários centros.
A teoria que facilita o encontro de Jung e Rolf é a do Reich. Através do conceito de couraça do caráter ele vai demonstrar como o corpo e a psique interagem. Reich ensina que a defesa emocional ocorre com a contenção da respiração. O corpo vai se encolhendo em anéis horizontais impedindo que as experiências sejam integradas. Ou seja, o todo não se realiza.
Esta questão vai diretamente de encontro a teoria de Rolf, cujo centro do movimento é a dobradiça lombar/dorsal, ou seja, diafragma, que é respiração e psicologicamente emoção. Na relação corpo/psique, portanto, a questão da unidade forma-função também é válida.
Não sou o primeiro reich-junguiano. Não inventei esta vertente de estudo. Mas agora estou juntando à abordagem reich-junguiana a técnica de Rolf, a qual é bem fundamentada e muito funcional.
A integração pode começar na psique, ou no corpo. Mas qualquer que seja o início a outra metade será contaminada. Uma integração da psique trará relaxamento e integração para o corpo. E quando ocorrendo no corpo a integração levará a uma inteireza psicológica. Da mesma forma uma restrição corporal grave impedirá ou trará sérias complicações para que a psique possa integrar-se. E vice-versa. Quando as duas dinâmicas se fundem temos os graus mais altos de integração.
Jung acreditava que uma nova ciência seria criada neste século. A ciência moderna optou pelas soluções práticas, e caminhando nesta direção aboliu o significado, considerando supertições as dinâmicas psíquicas atrás dos fenômenos físicos. Este caminho se esgotou. Mesmo que as células tronco venham a funcionar (e tomara que funcionem!), o caminho da “cura do Ser” obrigatoriamente será retomado. Simplesmente porque não é mais possível vivermos dessa forma caótica e infeliz. A vida é a realização do Ser, sem isso não adiantam todos os avanços tecnológicos.
O livro não esgota o assunto, pelo contrário abre a polêmica da questão da relação mente/corpo. A ambição deste livro é lançar fundamentos para uma expansão desse pensamento psico-físico. E quando essa nova ciência vier a existir, a compreensão estrutural da alma e do corpo estará em sua base, talvez misturada com outros conhecimentos, usando outros nomes, irreconhecível, invisível, mas ela estará lá. Simplesmente porque são verdades eternas.

Nelson Coutinho é rolfista avançado, presidente da Sociedade Brasileira de Integração Estrutural e autor do livro Mandala Viva.